
No aniversário da revista, investigue informações sobre a Bíblia! Será que tudo o que é dito por aí está nas Escrituras?

Por: Sandro Miranda ::: Arte: Rafael Barsotelli e Magnific
Toda a atenção na Palavra
Para comemorar os 21 anos da Turminha da Graça, preparamos um desafio: reunimos 21 informações que muita gente acredita saber sobre a Bíblia. Por exemplo: foram realmente três reis magos que visitaram Jesus quando ele nasceu? Muitas vezes, um detalhe não aparece nas Escrituras, mas foi acrescentado à história ao longo do tempo pela tradição, pela arte ou pelo imaginário popular. Em outras situações, simplesmente não está registrado na Palavra. Por isso, vamos pesquisar! É hora da investigação!
Comece pelo contexto
Na época em que o Livro Sagrado foi escrito, o contexto era bem diferente do atual: sem internet, rádio ou TV. Para a antropóloga bíblica Dra. Lidice Meyer, entender isso é importante, pois o conteúdo foi transmitido oralmente durante várias gerações, ao longo de quase mil anos, até ser inserido em livros. “Para entender bem a Bíblia, precisamos saber: quando a história aconteceu, quando o texto foi escrito e o que o autor queria ensinar com aquilo”, diz a especialista, que é doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP), pós-doutora em Antropologia e História, antropóloga bíblica e historiadora das religiões.

Dra. Lidice Meyer: a importância de pesquisar o contexto bíblico
Adão e Eva comeram uma maçã?
A Bíblia não informa. Mas essa questão de qual teria sido o fruto (Gênesis 2.16,17) sempre deixou a humanidade curiosa. Azzan Yadin-Israel, professor de Estudos Judaicos e Clássicos, disse em entrevista para o site da Universidade norte-americana de Rutgers que a ideia da maçã apareceu, pela primeira vez, em pinturas francesas no século 12. Outros estudiosos antigos acreditavam que podia ser figo, já que Adão e Eva se cobriram com folhas de figueira depois que erraram (Gênesis 3.7). No fim das contas, além do Criador, só eles dois sabem a resposta!

Eva estava sozinha quando comeu o fruto?
Não exatamente. Em Gênesis 3.6 (versão ARC), o texto diz que Eva comeu o fruto e o entregou ao seu marido, que também o comeu. Outras versões bíblicas, como NVI e NVT, sugerem que Adão estava com ela. De qualquer forma, uma coisa é certa: os dois desobedeceram a Deus.
Caim, Abel e Sete foram os únicos filhos de Adão e Eva?
Não. Caim, Abel e Sete são personagens muito conhecidos, mas a Bíblia também afirma que o casal teve filhos e filhas (Gênesis 5.4). O texto não informa quantos foram. Quando uma ilustração ou aula mostra só os três, é apenas para resumir! Há uma parte muito bonita dessa história da família de Adão e Eva. Sete teve um filho chamado Enos, e foi nessa época que o Nome do Senhor começou a ser invocado na Terra (Gênesis 4.26).

Noé levou apenas um casal de cada animal para a arca?
Não exatamente. A imagem de dois animais de cada espécie entrando na arca é muito conhecida. Porém, o livro de Gênesis apresenta uma diferença entre os animais considerados puros e impuros. A quantidade não é a mesma: são sete pares de cada espécie pura e um par de cada espécie impura (Gênesis 7.2,3).

O Dilúvio durou apenas 40 dias?
Não. A chuva caiu durante 40 dias e 40 noites, mas esse não foi o tempo total da narrativa do Dilúvio. As águas permaneceram sobre a Terra antes de começarem a baixar. Sendo assim, os 40 dias têm a ver com o período de chuva, não com todo o tempo em que Noé e sua família permaneceram na arca (Gênesis 7—8). Essa história tão marcante da Bíblia foi representada em obras de muitos artistas ao longo dos séculos. O pintor e escultor italiano Michelangelo foi um deles, no afresco O dilúvio universal, pintado entre 1508 e 1512.
Foi Noé quem fechou a porta da arca?
Não. Depois que Noé, sua família e os animais entraram na arca, Deus fechou a porta (Gênesis 7.16).
Dalila cortou os cabelos de Sansão?
Não diretamente. Enquanto Sansão dormia, ela chamou um homem, que cortou as sete tranças da cabeça do juiz hebreu (Juízes 16.19). Você pode pensar: “Sempre vi a Dalila cortando o cabelo de Sansão nos desenhos, livros e filmes”. Exatamente, lembramos dessa forma porque a cena, normalmente, é mostrada envolvendo somente os dois personagens principais. Deve ser para causar um efeito mais impactante.

O cabelo de Sansão tinha poderes mágicos?
Não. O Pr. Eber Cocareli, que estudou História na USP e se formou em Teologia pela Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente, explica: “Não era o cabelo que produzia a força extraordinária de Sansão. Era Deus! Quando Sansão quebrou sua consagração ao Senhor, perdeu sua força. Mais tarde, depois de orar ao Criador, ele a recuperou [Números 6; Juízes 13.5; 16.17-20]”.

Pr. Eber: Deus produziu a força de Sansão
Davi derrotou Golias apenas com uma pedrada?
Não. A história não acaba quando a pedra acerta Golias. Logo após derrubá-lo, Davi pegou a espada do próprio gigante e o matou (1 Samuel 17.49-51). Uma curiosidade é que a funda, naquele tempo, não era um brinquedo. O escritor e teólogo norte-americano Victor Gilbert Beers fala em seu livro Viaje através da Bíblia que os atiradores de funda eram guerreiros em certas regiões, porém Golias não pensou que um jovem pudesse ter essa habilidade.

Jonas foi engolido por uma baleia?
Não. Deus preparou um grande peixe para engolir Jonas, e não uma baleia (Jonas 1.17).

Eram três reis magos?
A Bíblia não diz isso. O livro de Mateus conta que magos chegaram do Oriente para procurar Jesus, mas não informa quantos eram, nem se eram reis (Mateus 2.1-11). As pessoas deduziram esse número porque eles deram três presentes: ouro, incenso e mirra. Mas e os nomes Melquior, Baltasar e Gaspar? Essa é uma tradição popular que surgiu nos primeiros séculos da Igreja. Em 1882, o pastor batista britânico Charles Spurgeon, em seu sermão A estrela e os homens sábios, falou que o mais importante não eram esses detalhes, mas, sim, aprender com os magos: eles acreditaram de verdade no nascimento do Salvador!

Maria viajou para Belém montada em um jumento?
A Bíblia não informa. O texto fala que José foi de Nazaré para Belém, e Maria estava com ele (Lucas 2.4,5), mas não diz qual meio de transporte foi usado. As pessoas supõem que tenha sido o jumento, pois era um “veículo” comum da época. Para ter uma ideia, a distância de Nazaré a Belém era de aproximadamente 120 quilômetros. Então, é bem possível que ela, estando grávida, tenha usado um animal como meio de transporte.
Os magos encontraram Jesus na manjedoura com os pastores?
Não. Os pastores aparecem junto ao menino colocado na manjedoura (Lucas 2.7-20). Os magos chegaram depois e encontraram Jesus com Maria em uma casa (Mateus 2.1-11). É comum vermos presépios e outras obras de arte reunindo todos na mesma cena. Um exemplo é a obra A natividade mística (1501) do pintor italiano Sandro Botticelli, que se encontra na National Gallery, em Londres, Inglaterra. A imagem é bonita e ajuda a contar a história, mas não significa que todos chegaram ao mesmo lugar e no mesmo momento.
A Bíblia afirma que Jesus nasceu em um estábulo?
Não exatamente. O texto de Lucas fala que o Filho de Deus foi colocado em uma manjedoura, mas não menciona a palavra “estábulo” (Lucas 2.7).

Jesus nasceu em 25 de dezembro?
A Bíblia não informa. O nascimento de Jesus é narrado nos evangelhos de Mateus e Lucas, mas nenhum deles revela a data exata. A escolha do dia 25 de dezembro ocorreu por volta do século 4, para dar um novo sentido às festividades pagãs do solstício de inverno, momento que marcava o “renascimento do Sol”, quando os dias voltavam a ficar mais longos. A primeira comemoração registrada do Natal nesse dia foi em Roma no ano de 354.
Jesus mudou o nome de Saulo para Paulo depois da conversão?
Não. A transição dos nomes ocorre em Atos 13.9: Saulo, que também se chama Paulo. Como o apóstolo era judeu e também cidadão romano, possuía dois nomes desde o nascimento: um em hebraico e outro em latim.
Paulo caiu de um cavalo quando encontrou Jesus?
A Bíblia não informa. Uma luz do céu brilhou ao redor de Saulo. Então, ele caiu no chão e ouviu a voz de Jesus (Atos 9.3,4). Mas onde entra o cavalo? Na imaginação de artistas para dar mais dramaticidade à cena. Um exemplo é a obra A conversão de Saulo (1600–1601), do pintor italiano Caravaggio. A imagem do animal em telas ficou tão famosa que muita gente passou a acreditar que ele realmente fazia parte do relato bíblico.
Todos os anjos têm asas?
Não exatamente. A Bíblia menciona asas apenas em serafins e querubins (Isaías 6.2; Ezequiel 10.5). Porém, os anjos mensageiros são parecidos com homens comuns (Gênesis 18.1,2; 19.1). Então, por que nas artes os anjos têm asas? O Pr. Eber explica que isso é uma forma de comunicação visual: “Para dizer que os anjos são seres celestiais, o que mais se aproxima do Céu? As asas”. Ele lembra que o próprio Deus mandou retratar os querubins com asas na arte hebraica (Êxodo 25.18-20).

Satanás é vermelho, com chifres, rabo e tridente?
Não. As Escrituras não o descrevem assim (Efésios 6.11,12; 1 Pedro 5.8; Apocalipse 12.9).
“Deus ajuda quem cedo madruga” está na Bíblia?
Não. Essa frase é um ditado popular, não um versículo bíblico. Esse exemplo ajuda a perceber algo importante: uma ideia pode ser repetida tantas vezes que começa a parecer que sempre fez parte das Escrituras.
A Palavra diz que ”o dinheiro é a raiz de todos os males”?
Não exatamente. O texto bíblico fala: o amor ao dinheiro (1 Timóteo 6.10). O Pr. Eber explica: “Somos embaixadores do Reino de Deus. Aqueles que caem em tentação, querendo usufruir as riquezas deste mundo, e empenham todas as suas forças para isso estão no foco do alerta que a Bíblia está dando. Não devemos sair do mundo, só não podemos ter o mundo dentro de nós”.
Sucesso na investigação!
Não exatamente. O texto bíblico fala: o amor ao dinheiro (1 Timóteo 6.10). O Pr. Eber explica: “Somos embaixadores do Reino de Deus. Aqueles que caem em tentação, querendo usufruir as riquezas deste mundo, e empenham todas as suas forças para isso estão no foco do alerta que a Bíblia está dando. Não devemos sair do mundo, só não podemos ter o mundo dentro de nós”.